Opinião – Folha de S. Paulo


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Aldo Pereira

Miséria institucional, pobreza nacional
Um estudo feito pelo Banco Mundial concluiu que Estado eficiente e eticamente íntegro é o mais importante fator de riqueza para todos os países.

Mexicano entra nos Estados Unidos e consegue emprego clandestino. Instantaneamente, sua produtividade aumenta cinco vezes.
Isso ocorre porque ele: a) levou consigo alguns quilos de cocaína; b) tornou-se astro do cinema pornô; c) matou-se de trabalhar para um fazendeiro desalmado.
As opções não são de todo implausíveis, mas falta aí uma alternativa correta: nenhuma das outras três. Também faltam outras que, mais a sério, decerto ocorreriam a você: o mexicano ter imergido em ambiente econômico marcado por superioridade tecnológica, infraestrutura mais eficiente, urbanização mais extensa, melhor proveito dos recursos naturais.
Mas, segundo o Banco Mundial, a verdadeira razão deve ser buscada na superioridade do “capital intangível” dos valores institucionais: menos corrupção e inépcia nas instituições, maior eficiência e responsabilidade delas, maior confiança da nação nos seus três Poderes.
Daí a riqueza intangível dos EUA ser 12 vezes a do México (crédito ao jornalista Ronald Bailey, que, ao citar essa diferença num artigo da revista “Reason”, inspirou a caricatura do emigrante mexicano).
O estudo que produziu essa conclusão saiu publicado primeiramente no best-seller (acadêmico) de 2006, “Where is the Wealth of Nations?: Measuring Capital for the 21st Century”, mas a versão atualizada que o Banco Mundial publica neste ano confirma a tese.
Na busca de resposta para a pergunta do título, especialistas do departamento de economia ambiental do banco computaram, em cada país estudado, recursos como minerais (inclusive petróleo), florestais e agrícolas, maquinário, infraestrutura, patrimônio urbano etc.
E coçaram a cabeça: quando não computado o capital intangível das instituições do Estado, o nível de renda apurado na maioria deles não se mostrava compatível com o valor corrente dos bens acima.
Conclusão do banco: Estado eficiente e eticamente íntegro é o mais importante fator de riqueza em todos os países do mundo.
“Em larga medida, país rico o é em razão da competência técnica de suas populações e da qualidade das instituições que sustentam a atividade econômica.” O estudo demonstrou ainda que 57% do capital intangível de um país advém da qualidade de seu sistema judicial; e 36%, da qualidade do ensino.
A cada assalto ou intimação de esmola que sofre, você decerto se pergunta por que o Brasil carece tanto de segurança, saúde, educação, conforto e dignidade. Afinal, somos um dos três ou quatro países mais ricos do mundo em recursos naturais e outros fatores de riqueza, como clima, estabilidade geológica e sossego geopolítico.
Mas, dados de 2010: somos o 91º país no ranking de Renda Nacional Bruta (ex-Produto Nacional Bruto) per capita do Banco Mundial. O México está na 89ª posição.
Valendo a correlação, classificamos aí a qualidade de nossas instituições? Pergunte a um parlamentar. A um governante. A um juiz.

ALDO PEREIRA é ex-editorialista e colaborador especial da Folha.

E-mail: aldopereira.argumento@uol.com.br.

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