É permitido esquecer – Neurologista esclarece as verdades e os mitos sobre a memória


É permitido esquecer
Neurologista esclarece as verdades e os mitos sobre a memória

Redação da Revista Mais de 50

Todo esquecimento é sinal da doença de Alzheimer? Afinal, como deve ser a alimentação para deixar a memória afiada? Será que os exercícios físicos realmente fazem bem para o cérebro? Quando o assunto é memória fica difícil conseguir guardar tanta informação, e mais complicado ainda é saber quais dessas informações, de fato, são verdadeiras.

Por exemplo, lembra daquela velha história de que esquecer faz parte do envelhecimento. Esqueça. De acordo com a neurologista e membro do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Sônia Brucki, isso não passa de um mito. “A ideia de que com o passar dos anos a diminuição da memória seja normal não é verdade. O envelhecimento saudável propicia a preservação de nossas funções cognitivas, inclusive da memória”, afirma ela.

A seguir, a neurologista esclarece o que é verdade e o que não passa de mito.

A diminuição da memória na terceira idade é normal.
Mito. O ideal é que todos nós envelheçamos de forma saudável e com nossas funções cognitivas intactas. Os idosos quando comparados a indivíduos jovens apresentam escores menores em testes de aprendizado, demoram mais a aprender, mas uma vez ocorrido o processo o restante é normal. Existe uma diminuição na velocidade de processamento psicomotor, porém, estas alterações não levam a comprometimento no dia a dia.

O estresse e a ansiedade podem comprometer a memória.
Verdade. O indivíduo com estresse crônico pode apresentar alteração na retenção de novas informações, estando relacionada tanto a alterações de atenção quanto no próprio processo de aquisição e formação de novas memórias. Também a ansiedade pode alteração neste processo, principalmente, por comprometimento da atenção.

Os exercícios físicos fortalecem a memória.
Verdade. Em animais sabe-se que a atividade física aumenta o número de sinapses no hipocampo (estrutura intimamente ligada à formação de memórias). Entre as pessoas, o exercício tem beneficiado de forma inegável o controle de colesterol, diabetes, hipertensão arterial, que são fatores de risco para doenças vasculares, portanto, também diminuem os riscos de alterações vasculares cerebrais. Em alguns estudos a atividade física melhorou o desempenho cognitivo dos participantes, em geral, em tarefas envolvendo atenção e velocidade psicomotora.

Atividades mentais como jogo de xadrez, dama, palavras cruzadas retardam a perda de memória.
Verdade. O hábito de fazer atividades cognitivas faz com que exista um decréscimo na perda de memória, não em todos os estudos, mas a realização de atividades intelectuais está ligada a criação de novas sinapses e, de qualquer modo, é um bom modo “de exercitar o cérebro”. Manter-se ativo é o melhor remédio, seja fazendo novos cursos, leitura, ir ao cinema, exposições, apresentações, etc. O ideal é não ficar em frente à televisão, assistindo com passividade.

Todo esquecimento é sinal da doença de Alzheimer.
Mito. A queixa de memória é muito comum entre a população, variando entre 15 a 70%, dependendo do estudo. A doença de Alzheimer, é uma doença degenerativa do sistema nervoso central que inicia-se, em geral, com comprometimento de memória, porém, este vai piorando com o tempo. Sua frequência aumenta com o avançar da idade. É importante prestar atenção nos indivíduos com queixas de esquecimento, se o mesmo se acompanha de dificuldades nas atividades diárias que não existiam anteriormente. Além disso, várias condições associam-se a alterações de memória, como ansiedade e depressão. Ou mesmo o uso de vários tipos de medicações.

O nível de escolaridade influencia as funções cognitivas, como a memória.

Verdade. De um modo geral, quanto maior a escolaridade maior a reserva cognitiva que o indivíduo tem, quer dizer, tem mais substrato para lidar com futuras perdas e se adaptar às alterações cerebrais que possam ocorrer. Mas não só o nível de escolaridade alcançado é importante, se o indivíduo teve pouca escolaridade formal, porém, sempre teve o hábito de leitura, de se informar das mais diversas formas, também retarda comprometimentos futuros.

Com o passar do tempo, a capacidade de memorização diminui.
Verdade. Se compararmos idosos a jovens, sabemos que existem diferenças durante o processo de aprendizado, porém, uma vez aprendida a informação, esta diferença desaparece.

A memória remota é a mais preservada durante a terceira idade.
Verdade. Se considerarmos que o indivíduo que se lembrou da mesma situação, informação mais vezes durante sua vida, teve maior chance de fortalecê-la e, por isso, uma maior facilidade em relembrá-la. Este mecanismo ocorre com todas as pessoas, lembramos com maior facilidade do que já relembramos mais vezes e com o que tem mais importância emocional.

Uma alimentação rica em carnes, gorduras, açúcar e com alto consumo de álcool prejudicam a memória.
Verdade. Estes fatores todos aumentam o risco de doenças cerebrovasculares. As lesões cerebrais após insultos vasculares (sejam por isquemias – falta de sangue; ou hemorrágicos) causam alterações cognitivas numa porcentagem significativa dos pacientes. A alimentação saudável (rica em cereais, legumes, verduras, peixes, azeite), associada ao exercício físico, à atividade intelectual, consumo leve de bebidas alcoólicas são os melhores fatores para termos uma vida e envelhecimento saudáveis.

A sociabilização favorece o bom funcionamento da memória.
Verdade. Vários estudos já demonstraram que indivíduos solitários, isolados da convivência social têm mais chance de evolução para demência, e também têm maior risco de desenvolver depressão. Por isso, manter uma rede de amigos e atividades sociais é muito bom em qualquer idade

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